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segunda-feira, agosto 20

A mulher de 30 anos

Por Honoré de Balzac 


Ela perde o frescor juvenil, é verdade. Mas também o ar inseguro de quem ainda não sabe direito o que quer da vida, de si mesma e de um homem. Não sustenta mais aquele ar ingênuo, uma característica sexy da mulher de 20. Só que isso é compensado por outros atributos encantadores que reveste a mulher de 30. 
Como se conhece melhor, ela é muito mais autêntica, centrada, certeira no trato consigo mesma e com seu homem. Aos 30, a mulher tem uma relação mais saudável com o próprio corpo e orgulho da sua vagina, das suas carnes sinuosas, do seu cheiro cítrico. Não briga mais com nada disso. Na verdade, ela quer brigar o menos possível. Está interessada em absorver do mundo o que lhe parecer justo e útil, ignorando o que for feio e baixo - astral. Quer é ser feliz. Se o seu homem não gosta dela do jeito que é, que vá procurar outra. Ela só quer quem a mereça. 

Aos 30 anos, a mulher sabe se vestir. Domina a arte de valorizar os pontos fortes e disfarçar o que não interessa mostrar. Sabe escolher sapatos e acessórios, tecidos e decotes, maquiagem e corte de cabelo. Gasta mais porque tem mais dinheiro. Mas, sobretudo, gasta melhor. E tem gestos mais delicados e elegantes. 

Aos 30, ela carrega um olhar muito mais matador quando interessa matar. E finge indiferença com muito mais competência quando interessa repelir. Ela não é mais bobinha. Não que fique menos inconstante. Mulher que é mulher,se pudesse, não vestiria duas vezes a mesma roupa nem acordaria dois dias seguidos com o mesmo humor. Mas, aos 30 ela,já sabe lidar melhor com esse aspecto peculiar da sua condição feminina. E poupa (exceto quando não quer) o seu homem desses altos e baixos hormonais que aos 20 a atingiam e quem mais estivesse por perto, irremediavelmente. 
Aos 20, a mulher tem espinhas. Aos 30, tem pintas, encantadoras trilhas de pintas, que só sabem mesmo onde terminam uns poucos e sortudos escolhidos.
Sim, aos 20 a mulher é escolhida. Aos 30, é ela quem escolhe. E não veste mais calcinhas que não lhe favorecem. Só usa lingeries com altíssimo poder de fogo. Também aprende a se perfumar na dose certa, com a fragrância exata.
A mulher de 30, mais do que aos 20, cheira bem, dá gosto de olhar, captura os sentidos, provoca fome. Aos 30, ela é mais natural, sábia e serena. Menos ansiosa, menos estabanada. Até seus dentes parecem mais claros; seus lábios, mais reluzentes; sua saliva, mais potável. E o brilho da pele não é a oleosidade dos 20 anos, mas pura luminosidade.
Aos 20 ela rói as unhas. Aos 30, constrói para si mãos plásticas e perfeitas. Ainda desenvolve um toque ao mesmo tempo firme e suave. Ocorre algo parecido com os pés, que atingem uma exatidão estética insuperável. Acontece alguma coisa também com os cílios, o desenho das sobrancelhas, o jeito de olhar. Fica tudo mais glamouroso, mais sexualmente arguto.
Aos 30, quando ousa, no que quer que seja, a mulher costuma acertar em cheio. No jogo com os homens já aprendeu a atuar no contra - ataque. Quando dá o bote é para liquidar a fatura. Ela sabe dominar seu parceiro sem que ele se sinta dominado. Mostra a sua força na hora certa e de forma sutil.
Não para exibir poder, mas para resolver tudo ao seu favor antes de chegar ao ponto de precisar exibi-lo. Consegue o que pretende sem confrontos inúteis. Sabiamente, goza das prerrogativas da condição feminina sem engolir sapos supostamente decorrentes do fato de ser mulher.

quinta-feira, agosto 9

Direito de explosão


O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional a quantidade de foda-se! que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do foda-se!? O foda-se! aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor.

Reorganiza as coisas. Me liberta. Não quer sair comigo?

Então foda-se!. Vai querer decidir essa merda sozinho (a) mesmo? Então foda-se!. O direito ao foda-se! deveria estar assegurado na Constituição Federal.


Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

Prá caralho, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que Prá caralho? Prá caralho tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas prá caralho, o Sol é quente prá caralho, o universo é antigo prá caralho, eu gosto de cerveja prá caralho, entende? No gênero do Prá caralho, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso Nem fodendo!. O Não, não e não! e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade Não, absolutamente não! o substituem.

O Nem fodendo é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral?
Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo Marquinhos presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicinio.

Por sua vez, o porra nenhuma! atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a gravata daquele chefe idiota senão com um PHD porra nenhuma!, ou ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!. O porra nenhuma, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

São dessa mesma gênese os clássicos aspone, chepone, repone e mais recentemente, o prepone – presidente de porra nenhuma. Há outros palavrões igualmente clássicos. / Pense na sonoridade de um Puta-que-pariu!, ou seu correlato Puta-que-o-pariu!, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba… Diante de uma notícia irritante qualquer puta-que-o-pariu! dito assim te coloca outra vez em seu eixo.

Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso vai tomar no cu!? E sua maravilhosa e reforçadora derivação vai tomar no olho do seu cu!. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus uando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: Chega! Vai tomar no olho do seu cu!.

Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e sai a rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: Fodeu!. E sua derivação mais avassaladora ainda: Fodeu de vez!. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? Fodeu de vez!.

Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se …
Millôr Fernandes

terça-feira, julho 31

Quero tudo novo de novo. Quero não sentir medo. Quero me entregar mais, me jogar mais, amar mais.

Viajar até cansar. Quero sair pelo mundo. Quero fins de semana de praia. Aproveitar os amigos e abraçá-los mais. Quero ver mais filmes e comer mais pipoca, ler mais. Sair mais. Quero um trabalho novo. Quero não me atrasar tanto, nem me preocupar tanto. Quero morar sozinha, quero ter momentos de paz. Quero dançar mais. Comer mais brigadeiro de panela, acordar mais cedo e economizar mais. Sorrir mais, chorar menos e ajudar mais. Pensar mais e pensar menos. Andar mais de bicicleta. Ir mais vezes ao parque. Quero ser feliz, quero sossego, quero outra tatuagem. Quero me olhar mais. Cortar mais os cabelos. Tomar mais sol e mais banho de chuva. Preciso me concentrar mais, delirar mais.
Não quero esperar mais, quero fazer mais, suar mais, cantar mais e mais. Quero conhecer mais pessoas. Quero olhar para frente e só o necessário para trás. Quero olhar nos olhos do que fez sofrer e sorrir e abraçar, sem mágoa. Quero pedir menos desculpas, sentir menos culpa. Quero mais chão, pouco vão e mais bolinhas de sabão. Quero aceitar menos, indagar mais, ousar mais. Experimentar mais. Quero menos “mas”. Quero não sentir tanta saudade. Quero mais e tudo o mais. 
“E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha".


Fernando Pessoa 

terça-feira, julho 24

Complementares


Ela sonha com a liberdade, eu sinto falta do colo e do berço. Ela quer um príncipe encantado, eu tampouco pratico apego. Ela quer certeza das coisas e eu vou vivendo a incerteza de cada dia. 

quarta-feira, julho 18

O dia em que virei boneca

Percebi, logo ao amanhecer
Que havia perdido o movimento dos olhos.
Para frente, era a única direção que eles conheciam.
Agora eu só olhava adiante.
Fui tomar banho e notei, sem muita emoção,
Que minha pele já não absorvia a água com tanta facilidade.
Acho que perdi a capacidade de sentir na pele. 
A falta de sangue me deixou mais reciclável e fria, 
Alguns nutrientes a menos me embaraçaram mais os cabelos…
Cabelo… Sempre foi a minha parte menos desartificial,
Sempre foi meu parque de diversões nos dias de tédio. 
Abri meu guarda-roupas e uma novidade confortante:
Agora eu só tenho um vestido. 
Um amarelo estampado, com renda no final, como deveria ser a vida. 
Não preciso escolher o que vestir. 
Só preciso escolher entre me vestir, ou não. 
Pela primeira vez na vida, não tenho um dono. 
Tenho hora para o chá, tenho uma prateleira e, às vezes, 
Por pouco tempo, pego poeira. 
Mas nunca mais fui obsoleta. 
Sempre existe alguém enxergando diversão em mim. 
Uma vez que saí da embalagem, minha vida é criar memórias. 
Todo mundo “amava aquela boneca”. 
Agora muita gente já me amou, até no futuro. 
Sou pouco articulada, mas não me preocupo com as cutículas. 
Minha maçã é rosada, algumas pessoas vão me achar ridícula. 
Mas, meu rosto agradavelmente só me permite sorrir. 
Sorrir e olhar para frente. 
Amar quem atropelar meu olhar, e saber ser memória. 
Aprendi a ser memória. 
Foi esse o dia em que virei boneca

sexta-feira, junho 8

O medo de morrer nos mata por antecipação

Por Edival Lourenco 
Toda atividade humana tem como função básica livrar-se das garras da morte. É para não morrer que a gente dorme, que a gente se levanta, que a gente ama, que a gente estuda, trabalha, xinga, blasfema, reza ladainhas, faz discurso na praça, arruma um ponto de mínimo conforto nas engrenagens da sociedade e acaba por constituir um diferencial, uma persona, uma identidade única no meio de tantas criaturas semelhantes. A morte é a alavanca propulsora de toda energia vital.  
Para não morrer, você se converte a uma fé supostamente redentora e se dobra diante de um Deus furtivo. Passa a agir, não por si mesmo, mas pelo índex do que pode e do que não pode, segundo os dogmas de sua seita, na fervorosa ilusão de que morrendo fisicamente na fé haverá de ressurgir eternamente na graça do Deus glorificado. Em outras palavras: por medo de morrer, você acaba morrendo um pouco por antecipação.
Para não morrer, você espreme os miolos até encontrar uma ideia genial e inventar um treco sui generis que caia no agrado do consumidor e vá vender feito pão fresco às três da tarde. E a venda dessa coisa há de deixá-lo podre de rico (que podre de pobre não tem o poder de afugentar a morte) de tal sorte que possa encomendar o iate mais longo do mundo, possa arrumar para deleite as pessoas mais cobiçosas que possa haver, comprar a mansão com cômodos a sumir de vista (ainda que seu corpo para desfrutá-la seja um só) juntar na extensão da garagem os carros mais desejados da terra, mesmo que você jamais terá tempo de se sentar no cockpit de um bólido desses e ziguezaguear pelas ruas do bairro ou pegar um estrada sem rumos e curtir a  paisagem na magia do entardecer.
Mas ao virem você movimentado com desenvoltura por entre tamanha tranqueira, as revistas de fofoca, as colunas de jornais e outras frívolas comunicações haverão de proclamar que você é um dos tais que venceu na vida e quem vence na vida tem a nítida sensação de haver afugentado a morte para o estrangeiro. Lembre-se. Para os dias de hoje, vencer na vida nada mais é do que juntar tranqueiras.      
Para não morrer, você se entulha de compromissos, cada um mais vazio do que o outro. No entanto, correndo assim de agenda cheia, terá a sensação de elevada importância nos acontecimentos sociais. E quem está tão cheio de compromissos e ocupações não será por certo agredido pela foice da morte. Ou porque você é muito importante para ser suprimido do quadro dos acontecimentos, ou porque você se distrai da “indesejada das gentes” e, uma vez se achando distraído, ela poderá até se esquecer de você. Ou você não é daqueles que pensam que o acaso vai lhe proteger enquanto andar distraído?   
Para não morrer, você se acasala e constitui prole, e espera dela, no esgalhamento, que venham netos, bisnetos e tudo o mais. E assim na sucessão das gerações, na memória daqueles que de você provêm, haverá de permanecer vivo, como um fantasma precursor, já sem carne, já sem ossos, já refeito, ou melhor, quase desfeito, na vaga lembrança dos descendentes. Porque uma vida só não lhe é bastante. É preciso se esticar para marcar fortemente sua passagem no mundo. 
Para não morrer é que você espreme seu cérebro já constipado pelo tempo e pelo mau uso, buscando algumas gotas que possam expressar o inexpressável, aquilo que se sente num leve vagar, mas que a palavra se furta a construir um sentido minimamente palatável, diante da confusão de tanta coisa, de um mundo fracionado e quebradiço, que não se deixa ser abarcado por uma noção de sentido.  
Para não morrer, você se imiscui nas entidades sociais, classistas ou culturais e exigem que lhe ergam bustos, que lhe afixem retratos nos murais, que lhe atribuam nomes de auditórios, bibliotecas, ruas e logradouros, até que de você mesmo ninguém se lembre mais, no entanto seu nome permaneça ali, numa lembrança deslembrada, numa forma precária de não estar morto, gozando do mais vivo “anonimato público”. 
Tudo para fugir da morte. 


http://www.revistabula.com/posts/colunistas/o-medo-de-morrer-nos-mata-por-antecipacao